Paulo Abrantes - Filosofia

Epistemologias evolucionistas

A partir de 1998 abri uma outra frente de pesquisa, aproximando-me agora da biologia (na minha pesquisa de pós-doutorado, como relatei acima, havia me apropriado de certos conhecimentos  produzidos no âmbito das ciências cognitivas).[15]

Há muito incomodava-me o fato de que a filosofia da ciência que pesquisava e que ensinava era excessivamente marcada pelo modelo da física enquanto ciência. Passei a sentir a necessidade de fazer uma filosofia mais atenta ao problemas específicos de outras ciências, e escolhi a biologia pelas razões que exponho a seguir.

O meu interesse filosófico pela biologia já havia sido indicado na conclusão do meu artigo ‘Naturalizando a epistemologia’, datado de 1993. Aí me perguntava se as epistemologias evolucionistas poderiam ser consideradas vertentes do programa naturalista em epistemologia.

Em 1998 submeti ao CNPq um projeto de pesquisa com o título ‘A abordagem evolucionista em epistemologia’. Nele cito, justamente, o parágrafo final do artigo de 1993 em que mencionara as epistemologias evolucionistas. É provável que o artigo de Philip Kitcher, bem como a leitura do clássico ‘Natural kinds’ de Quine (1987b), já mencionados acima em outro contexto, tenham sido as principais influências no sentido de me chamarem atenção para esse tópico. Faço também referência, no projeto, ao livro de Dennett, Darwin’s dangerous idea, no qual esse filósofo argumenta que a evolução pode ser vista como um processo algorítmico e, nessa medida, instanciável nos mais diversos substratos.

Eu já tivera contato com as tentativas de Popper de articular uma epistemologia evolucionista (compatível com a sua metodologia falseacionista), sobretudo a partir do seu livro Objective Knowledge, de 1972. Provavelmente por essa via, vim a conhecer o artigo ‘Evolutionary epistemology’ de D. T. Campbell, publicado justamente na famosa coletânea de Schilpp The Philosophy of Karl Popper, de 1973.

No projeto que apresentei ao CNPq em 1998, embora reconheça estar fazendo uma inflexão com respeito à minha pesquisa anterior sobre raciocínio analógico- e que se inseria no quadro de uma filosofia geral da ciência-, assim mesmo tento assinalar as continuidades com o que fazia anteriormente. Permito-me citar o trecho relevante do projeto:

“[A teoria darwinista da evolução] tem sido, de fato, uma fonte fértil de metáforas e de analogias para a modelagem dos mais diversos tipos de fenômenos. O caso do conhecimento e do seu desenvolvimento é somente um dos domínios nos quais se tem explorado essa transferência analógica de conceitos e mecanismos evolucionistas.”[16]

Eu já explicitava, nesse projeto, a distinção entre usos metafóricos da linguagem da teoria darwinista da evolução, e seus usos literais. Bradie (1986, 1995) distingue, a propósito, dois programas em epistemologia evolucionista: uma epistemologia evolucionista de mecanismos, de um lado; e uma epistemologia evolucionista de teorias, de outro. Pode-se argumentar que neste último caso a apropriação da linguagem biológica ocorre de forma meramente metafórica – envolvendo uma transferência analógica de conceitos-, e no primeiro caso aborda-se literalmente a evolução dos sistemas cognitivos.[17]

Ainda no projeto de 1998 incluí entre os usos literais da terminologia biológica o programa de uma psicologia evolucionista, rememorando a Conference on Epistemology & Evolutionary Psychology que ocorreu na Rutgers University em 1995. Esse congresso, que assisti durante o período em que estava fazendo meu pós-doutorado na Universidade de Pittsburgh, causou-me uma impressão forte pois reuniu filósofos, psicólogos e antropólogos da estatura de R. L.Trivers, J. Tooby, E. Sober, D. Papineau, D. Sperber, além do próprio S. Stich, que foi o organizador do evento. Só muito depois, quando passei a trabalhar com filosofia da biologia e com evolução humana, dei-me conta que estavam presentes no congresso pesquisadores desse quilate (eu só conhecia, naquela época, os trabalhos de Stich)!

A noção de ‘meme’, introduzida por Dawkins, já transparece no projeto de 1998, o que indica que eu estava atento a propostas de se aplicar o ‘algoritmo’ evolucionista (selecionista) à própria cultura, e não só à mente, como na psicologia evolucionista. É significativo, do ponto de vista do meu trabalho posterior, que o livro de Hull, Science as a Process (1998) apareça na bibliografia do projeto apresentado. Nesse livro, Hull vê a própria prática científica, em sua dimensão social (a comunidade científica), como passível de ser explicada através de um esquema selecionista.

Acho importante mencionar aqui esses detalhes do projeto de 1998 porque, de certa forma, nele se prenuncia muito do que eu faria depois, mesmo que isso ainda não estivesse totalmente consciente, ou explícito, naquele momento. O fato é que me foi concedida a bolsa e iniciei as pesquisas nessa nova direção. Iniciei então, preliminarmente, um estudo de filosofia da biologia, adotando a coletânea de Sober, de 1995, que continua sendo uma referência importante na área. Da posição em que me encontro hoje, décadas depois, consigo avaliar que o projeto apresentado ao CNPq é por demais ambicioso, embora eu tenha judiciosamente explicitado as várias etapas da sua execução. Não poderia saber que eu as estaria galgando, de certa forma, até hoje!

Em 2000-2001 apresentei uma série de palestras, no Brasil e no exterior, sobre o tema das epistemologias evolucionistas. Essa pesquisa resultou num artigo publicado em 2004, e que ganhou uma versão em espanhol em 2007.

Para não perder a linha do tempo, abro aqui um parênteses e registro que participei da reunião de um pequeno grupo na qual foi criado o GT de Filosofia da Ciência da ANPOF, ocorrida na UFMG em junho de 2001. Tenho participado assiduamente das reuniões desse GT, um dos fóruns nos quais venho apresentando os resultados da minha pesquisa. Tive, também, participações eventuais no GT de Filosofia da Mente.

Em 2000 havia apresentado um novo projeto de pesquisa ao CNPq com o título ‘Estrutura e âmbito da modalidade evolucionista de explicação’ onde me propunha a ir além das pretensões do projeto anterior, que estavam restritas ao âmbito da epistemologia. No projeto reapresento do seguinte modo a pesquisa que havia desenvolvido até aquele momento:

“No  projeto de pesquisa que apresentei anteriormente ao CNPq [tratava-se do projeto de 1998], examinei tentativas de se aplicar à epistemologia em geral, e à filosofia da ciência em particular, o tipo de explicação baseada no mecanismo evolucionista. Explorei, em especial, a transferência analógica de conceitos, relações, processos, etc. tomando a teoria da evolução como ‘fonte’ da analogia e a teoria do conhecimento como ‘alvo’. Para tanto, servi-me de uma pesquisa, que havia feito anteriormente, sobre a estrutura do raciocínio analógico como ocorre na atividade científica” (Abrantes, 1999).

Ato contínuo, indico os novos objetivos, de aplicar essa modalidade evolucionista de explicação a “…outras áreas da filosofia além da epistemologia (como, por exemplo, a filosofia da mente) e nas ciências (como, por exemplo, mas não exclusivamente, nas ciências cognitivas de um modo geral).” Indico também a necessidade que sentia de estudar tópicos em filosofia da biologia, como “… o debate em torno do adaptacionismo, das unidades de seleção, do reducionismo, etc.”

Achei importante ressaltar, no projeto de 2000, que a pesquisa teria um “interesse filosófico mais geral, já que a análise da natureza e estrutura da explicação é um dos tópicos centrais em filosofia da ciência”.

Prossigo fazendo um rápido apanhado das reconstruções propostas pelos empiristas lógicos da estrutura das explicações científicas, apontando para as dificuldades de estendê-las para ciências como a biologia e, em particular, para responder pelas “explicações envolvendo ‘entidades históricas’ como as espécies orgânicas”. Explicito, também, questões ontológicas a respeito da natureza das entidades históricas: seriam elas indivíduos ou classes? A influência do trabalho de Hull ‘A matter of individuality’ (embora não seja citado na bibliografia do projeto), a respeito da natureza das espécies biológicas é bastante clara aqui. Não poderia imaginar que voltaria a refletir sobre a noção de indivíduo biológico na pesquisa que faria, muitos anos depois, sobre transições em individualidade na evolução das espécies.

Dou, ao mesmo tempo, uma maior ênfase, nesse projeto de 2000, a discussões de fundamentos em biologia evolutiva. Aí destaco, de modo especial, o problema dos níveis de seleção, que se tornaria crucial na minha pesquisa posterior sobre evolução humana. Também me proponho a explorar “… tentativas de aplicação ‘literal’ dos conceitos e processos evolucionistas à epistemologia, e também a outras áreas, como a filosofia da mente.” Eu continuo, portanto, assumindo a distinção que faz Bradie entre usos metafóricos e literais da linguagem evolucionista, inclinando-me em direção a seus usos literais para abordar problemas em diversas áreas da filosofia.

Ainda insistia, em 2000, na idéia de aplicar um modelo de raciocínio analógico- o que havia desenvolvido durante o meu pós-doutorado (Abrantes, 1999)-, à construção de uma epistemologia selecionista. Ou seja, a aposta era que filósofos, e não só cientistas, empregam o raciocínio analógico: a epistemologia selecionista seria um exemplo disso, podendo ser vista como a instanciação de um tipo de teoria evolutiva no domínio do conhecimento. Embora tenha escrito embriões de artigos nessa direção, a aposta nunca rendeu dividendos e abandonei essa idéia.

Em 2008-9, fui o orientador da dissertação de mestrado de Marcos Toscano na qual constrói uma versão mais abstrata do mecanisno de seleção natural de modo a poder tratar da dinâmica tecnológica em termos selecionistas. Dessa parceria resultou uma dissertação e um artigo, com base nela, aceito para publicação nos Cadernos de História e Filosofia da Ciência. Destaco esse trabalho aqui porque o tópico da evolução[18] tecnológica se insere no âmbito mais amplo da evolução cultural, que viria a estar no centro da minha pesquisa posterior sobre evolução humana.

O tema da evolução cultural continuou interessando-me. Fazendo um salto no tempo, registro que fui convidado pelo Prof. Maximiliano Martínez, da Universidad Autónoma Metropolitana do México, para escrever um capítulo sobre ‘evolução cultural’ para o livro  Conceptos de la biología evolutiva para las ciencias sociales y las humanidades, que se encontra no prelo. Esse trabalho me permitiu retomar o que iniciara, décadas atrás, com Marcos Toscano.

No bojo dessa pesquisa, apresentei em 2016 uma comunicação sobre “Evolução Cultural” para X Encontro de Filosofia e História da Ciência do Cone Sul (AFHIC), que ocorreu em Águas de Lindóia, São Paulo.