Paulo Abrantes - Filosofia

Filosofia da biologia

Se tivesse que enquadrar o meu trabalho atual de pesquisa em alguma área da filosofia, eu escolheria a filosofia da biologia (enquanto sub-área da filosofia da ciência). Mas esses enquadramentos são sempre problemáticos e limitam demasiadamente o escopo da pesquisa que abrange, na verdade, diferentes áreas da filosofia, como mostrarei a seguir.

O projeto que propus ao CNPq para o período 2003-2006 mantém o mesmo título do projeto de 2000, mas há uma clara mudança de ênfase. Eu me proponho, agora, a explorar “as credenciais das explicações adaptacionistas para a (evolução da) cognição”, e faço uma rápida apresentação dos trabalhos de Sterelny e Godfrey-Smith. O projeto já previa, de fato, a solicitação de uma licença para trabalhar com esses pesquisadores na Austrália em um segundo pós-doutorado. Eu acreditava poder enquadrar essa temática na distinção, que havia analisado no projeto anterior, entre uma epistemologia evolucionista de teorias e uma epistemologia evolucionista de mecanismos. Havia uma intenção explícita, portanto, de fazer um uso literal, e não mais simplesmente metafórico, da teoria da evolução na exploração de problemas filosóficos, em especial o problema mente-corpo. 

Isso me levou a adotar, na abordagem desse problema, uma perspectiva diacrônica, e não sincrônica como é usual. Estava preocupado, agora, em compreender como evoluíram mentes de certos tipos, dadas certas condições ambientais.  

A “tese da complexidade ambiental” proposta por Godfrey-Smith (1998) é destacada no projeto de 2003 por pretender explorar cenários adaptacionistas para a evolução de mentes em termos da sua função no controle do comportamento de organismos situados em diferentes ambientes. Também tematizo a categorização, proposta por ele, de diferentes posições em filosofia como sendo ‘externalistas’ e ‘internalistas’, o que remete a …   

“… dois padrões clássicos de explicação utilizados em diversas ciências e áreas da filosofia, permitindo organizar, num esquema abrangente, antagonismos tradicionais (como os que opõem empiristas a racionalistas, positivistas a construtivistas, realistas a não-realistas, reducionistas a não-reducionistas …)”.

Sterelny é, por sua vez, mencionado por sua tentativa de explicar, em termos adaptacionistas, a evolução dos sistemas intencionais. Mas indico que ele adota um adaptacionismo “moderado”, o que permite contemplar a crítica que construtivistas como Lewontin e Gould fizeram aos compromissos filosóficos do programa adaptacionista.

Portanto, o projeto de 2003 direciona, claramente, a minha pesquisa para temas de fundamentos em filosofia da biologia (em especial os que requerem um esclarecimento dos conceitos de adaptação e de função), bem como para uma explicação da origem evolutiva de mentes de diferentes tipos, o que se tornou o foco da pesquisa a partir daí. A expectativa era que, sobretudo, o conceito de função biológica tivesse relevância não somente para análises no âmbito da filosofia da biologia, em particular, e da filosofia da ciência, em geral, mas também no da filosofia da mente (em especial, numa articulação mais  satisfatória do funcionalismo como proposta de solução para o problema mente-corpo, que contornasse as dificuldades apontadas pelos  críticos às tentativas feitas até então). Nesse espírito, Sober defendeu em um artigo de 1985 (republicado em Lycan, 1999) que temos que “colocar a função de volta no funcionalismo”, fazendo menção explícita ao conceito de função biológica.[19]

Também menciono, no projeto de 2003, o artigo que estava escrevendo com o biólogo Charbel N. El-Hani da UFBA, voltado para o tema da individuação de “teorias ou programas científicos, considerados enquanto entidades históricas, com especial atenção para a teoria ou programa darwinista”. O nosso ponto de partida nesse artigo é uma polêmica que travaram S. J.  Gould e D. Hull sobre a individuação da teoria darwinista. O que fizemos foi estender as posições defendidas por eles para quaisquer teorias científicas (ampliando, portanto, o escopo da controvérsia para uma filosofia geral da ciência).

Ainda no domínio da filosofia da ciência explicito, no projeto de 2003, o meu objetivo de explorar, na esteira do que fizera Hull, as “implicações metodológicas de uma abordagem selecionista da ciência”.[20]

A pesquisa que vinha fazendo desde 2000 refletiu-se, como é de se esperar, nos cursos que lecionei nesse período na pós-graduação em do Departamento de Filosofia. Em 2002, ofereci um curso com o objetivo de “estudar uma das vertentes da epistemologia contemporânea, a epistemologia evolucionista e o programa de um ‘darwinismo universal’ “. Em 2004,  ofereci uma disciplina abordando os principais programas hoje desenvolvidos para explicar a evolução humana: a psicologia evolutiva, a ecologia comportamental humana, a memética e a abordagem de coevolução gene-cultura.

Em 2003 gozei parte da minha licença sabática na condição de pesquisador visitante da Research School of Social Sciences (RSSS) da Universidade Nacional Australiana, onde desenvolvi um projeto de pesquisa com o título ‘Cenários para a evolução da mente humana’. Nessa oportunidade, tive contato mais próximo com as abordagens de K. Sterelny (eu havia lido, ainda no Brasil, uma versão preprint do seu livro Thought in a hostile world, que viria a ser publicado em 2003), e de Godfrey-Smith (2002, 2004) sobre a evolução da cognição e do comportamento humanos.

A importância dessa minha visita à RSSS não pode ser superestimada. Pude trocar idéias com dois dos mais importantes filósofos da biologia em atividade e, desde então, as minhas pesquisas voltaram-se, de modo consistente e duradouro, para a interface entre a filosofia da psicologia (especialmente no que diz respeito à estrutura e ao status da psicologia de senso comum- folk psychology) e a filosofia da biologia. Também passei a explorar aplicações de modelos biológicos, em especial evolutivos, à dinâmica científica e, de modo mais amplo, à dinâmica cultural.[21] Posso dizer que, até hoje, a minha pesquisa explora múltiplos aspectos da supra-citada interface.

Em julho de 2004 passei a ter uma segunda lotação no Instituto de Ciências Biológicas (IB) da UnB, o que deu ainda mais lastro, por assim dizer, à minha pesquisa em filosofia da biologia, que passou a ter como foco o tópico da evolução humana.

Quando da minha dupla lotação no IB) eu e a bióloga Maria Luíza Gastal criamos em 2004 as disciplinas ‘História da Biologia’ e ‘Filosofia da Biologia’. Também modificamos a ementa da disciplina ‘Dinâmica da Construção do Conhecimento Científico’, que estava desativada há anos. A partir desse ano, oferecí regularmente essas disciplinas no curso de graduação em biologia, e que eram também optativas para os alunos do Departamento de Filosofia. Também tive várias participações no curso de ‘Evolução humana’ que é oferecido na pós-graduação do IB, ao lado das biólogas Nilda Diniz e Silviene Oliveira.   

Nessa época, formei um grupo de discussão em filosofia da biologia composto por alunos que haviam cursado as disciplinas que oferecera no Mestrado em Filosofia, em 2002 e em 2004. Este grupo foi o embrião de um grupo de pesquisas em filosofia da biologia na UnB que, atualmente, é registrado com o nome ‘Mente, Linguagem e Evolução’ (MELE).

Compatibilismo e evolução humana

Relembro que desde 2000 passei a explorar convergências entre a epistemologia, a filosofia da mente e a filosofia da biologia. A idéia era de tentar estender as possibilidades explicativas do mecanismo darwinista de seleção natural a essas outras áreas. A partir de 2003 e, de forma mais clara, após retornar do meu pós-doutorado na Austrália, avaliei que a vertente mais promissora da minha pesquisa seria o tópico da evolução da mente humana, em que aquela convergência dar-se-ia, digamos, forçosamente.

Na primeira etapa dessa investigação, ainda sob influência dos trabalhos de Sterelny e Godfrey-Smith, explorei a aproximação entre, de um lado, as imagens de senso comum a respeito do que nos constitui enquanto pessoas e agentes- imagens pressupostas por grande parte da filosofia e também pelas ciências sociais- e, de outro, imagens que permeiam a biologia e que remetem à nossa natureza animal. O tópico da evolução humana é particularmente adequado para efetivar essa aproximação, já que permite confrontar essas diversas imagens e fazer confluir as pesquisas por elas motivadas.

Tratava-se de uma aposta, portanto, na contribuição que a filosofia pode dar no sentido de integrar a perspectiva adotada pelas ciências sociais a respeito do caráter de agentes humanos, e a perspectiva adotada pela biologia evolutiva que tem por objeto a espécie o Homo sapiens.

Publiquei a esse respeito, em 2006, um artigo na revista Manuscrito, ‘A psicologia de senso comum em cenários para a evolução da mente humana’. Este artigo marca, de fato, a nova orientação que imprimi à pesquisa.

Por algum tempo abordei, em artigos e palestras, o que Sterelny denomina os ‘projetos integradores interno e externo’. Com isso, eu voltava a lidar com uma temática metafilosófica, que havia deixado para trás com a publicação dos meus artigos sobre o naturalismo do final dos anos 1990. Como deixarei mais claro a seguir, uma das tarefas centrais da filosofia seria a de integrar concepções de senso comum, sobretudo em psicologia, com concepções científicas.

Além do artigo de 2006 na Manuscrito, já citado, publiquei outros em que essa temática metafilosófica é explicitamente abordada: ‘La imagen filosófica de los agentes humanos y la evolución en el linaje homínido’, em 2010; ‘Human evolution: compatibilist approaches’, em 2011; ‘A esfera do mental: filosofia, ciência e senso comum’, também em 2011; ‘Evolução humana: estudos filosóficos’, em 2013. Este último artigo pretende condensar e articular o que havia publicado até então sobre evolução humana. Recentemente, fiz uma síntese ainda mais abrangente de toda a minha pesquisa sobre esse tópico em Abrantes (2018a).

Submeti ao CNPq, em 2006, um projeto de pesquisa com um novo título ‘Mente, Cultura e Evolução’. Seus objetivos apontavam numa direção ‘compatibilista’ (embora não usasse o termo à época) na medida em que pretendia integrar as imagens de senso comum e as imagens científicas a respeito da condição humana. Avalio no projeto que o tema da evolução humana é particularmente propício para efetivar essa integração:

” … Aposto, portanto, na contribuição que a filosofia pode dar no sentido de integrar ou, pelo menos, de aproximar perspectivas adotadas pelas ciências sociais- a respeito do caráter de agentes humanos -, e perspectivas adotadas pela biologia evolutiva (…) A filosofia e as ciências sociais sempre convergiram no modo como concebem as nossas particularidades enquanto agentes, e a biologia aponta para continuidades em nossa inserção na ‘escala da natureza’- usando aqui uma expressão que possui uma longa história. Deveria haver um maior intercâmbio entre essas perspectivas- visando a um entendimento menos fragmentário e parcial do que somos nós-, mas isso não vem sendo feito de modo sistemático e frutífero.”

Sterelny e Godfrey-Smith argumentam que as nossas “habilidades interpretativas”- ou seja, habilidades para imputar estados mentais com base em alguma versão de uma psicologia de senso comum-, tiveram um papel crucial na evolução humana. Em outros termos, a explicação de como evoluiu uma ‘inteligência social’ associada a tais habilidades para a leitura de mentes (mindreading) é vista como um objetivo inescapável de qualquer teoria que pretenda abordar a evolução da mente humana. Essa teoria teria que explicar não somente a evolução de uma intencionalidade de primeira ordem- ou seja, a evolução dos sistemas intencionais-, mas também de uma intencionalidade de ordem mais alta, requerida por uma inteligência capaz de lidar com a complexidade do ambiente social.

Por vários anos as minhas leituras e pesquisas foram balizadas pela hipótese de que algo como uma ‘teoria da mente’ (expressão não muito feliz introduzida por primatólogos), ou, de forma menos equívoca, a capacidade para leitura de mentes, teve um papel crucial na evolução humana, seja para explicar como lidamos cada vez melhor, enquanto indivíduos de uma espécie biológica, com a complexidade social, seja para explicar como nos tornamos melhores aprendizes sociais e exímios imitadores.

Esse interesse pelo “papel que o conhecimento de senso comum, com ênfase na psicologia de senso comum, desempenha na investigação filosófica e nas ciências sociais, e suas implicações para a articulação de uma teoria da evolução humana” levou-me, por sua vez, a estudar os trabalhos de Lynne Baker (1995) e do eminente filósofo argentino Eduardo Rabossi (2004). Dei palestras a esse respeito em várias oportunidades mas limito-me a destacar aqui a minha participação em uma mesa-redonda organizada em homenagem ao saudoso Rabossi no VIII Colóquio Internacional Bariloche de Filosofía, em setembro de 2006. Rabossi havia falecido pouco antes, e essa participação foi muito significativa para mim pois havíamos tido um fértil intercâmbio em várias visitas que fiz à Argentina, a convite dele.

Pode-se perguntar como essa preocupação com a esfera do senso comum pode ser conciliada com uma postura naturalista. Levanto essa questão no artigo que publiquei na Manuscrito em 2006, onde mostro que o naturalismo de um Sterelny, por exemplo, o faz privilegiar, em última instância, o projeto integrador interno (de integrar as ciências sociais e as ciências naturais), deixando em situação precária as intuições com base no senso comum (o contraste, nesse tocante, com Lynne Baker é flagrante).