Paulo Abrantes - Filosofia

Transições em individualidade

Está patente neste Memorial a influência que Godfrey-Smith excerceu sobre a minha pesquisa desde que tive contato com suas publicações. Conheci-o pessoalmente durante o meu pós-doutorado na RSSS e encontramo-nos várias vezes mais nos congressos da International Society for History, Philosophy, and Social Studies of Biology (ISHPSSB).

Em 2009, ele publicou o livro Darwinian populations and natural selection e fui capturado pela sua leitura.[25] Comecei a estudá-lo logo em seguida pois planejava ter uma série de encontros com seu autor na universidade de Harvard, onde se encontrava à época. A leitura do livro de 2009 estimulou-me, por sua vez, a ler a literatura (já clássica) sobre transições em individualidade.

Li esse livro- muito denso e árduo (!)-, com toda a bagagem que possuía a respeito da teoria da dupla herança, que estudara minuciosamente nos anos anteriores. A leitura do seu capítulo 8, sobre ‘Evolução cultural’, sugeriu-me, de imediato, uma questão que iria ocupar-me por um bom tempo.

Não me pareceu que este capítulo se encaixava, ou mesmo que fosse consistente, com o esquema conceitual que Godfrey-Smith desenvolvera nos capítulos anteriores do seu livro. A meu ver, ele não deu um passo que me parecia uma decorrência natural do que vinha desenvolvendo no livro: por que não considerou a hipótese de que o surgimento de grupos culturais pode ser visto como uma transição em individualidade, como as outras que ocorreram na história da vida, desde o seu surgimento na Terra?  Isso promoveria uma sedutora unificação do nosso quadro de mundo!

Antes de entrar em mais detalhes a respeito de como enfrentei esse problema, gostaria de assinalar que após os encontros que tive com Godfrey-Smith no Departamento de Filosofia da Universidade de Harvard no final de 2009- durante uma licença para capacitação que gozava no período-, segui para Los Angeles para me encontrar com Richard Boyd, que integrava, à época, o Departamento de Antrolologia da UCLA. Pude, então, discutir detalhes da sua teoria da dupla herança, que constituíra o tópico central da pesquisa que eu desenvolvera no triênio 2007-2010, e que continua sendo uma referência para a pesquisa que faço atualmente, e fazer-lhe algumas críticas, em especial sobre o modo como enfrentam, o que denominam o “dilema adaptacionista”.[26]

Essa viagem me levou de um Departamento de Filosofia para um de Antropologia!  Esse trânsito é representativo daquele, de outra ordem, entre a filosofia e ciência, que caracteriza muito do que fiz ao longo da minha carreira acadêmica. De encontros com um filósofo, Godfrey-Smith, passei a ter encontros com um biólogo e antropólogo, Richard Boyd. Lembro-me que na discussão com ambos estiveram em pauta a importância do viés conformista na evolução humana e o papel da cultura nesse processo. Mas com Godfrey-Smith essa discussão se inseria em uma preocupação mais ampla com transições em individualidade, na busca de um quadro unificado de mundo, enquanto que em Boyd questões conceituais e empíricas se relacionavam mais estreitamente (ele preparava-se para viajar com uma orientanda com o objetivo de fazer observações em uma comunidade de alguma ilha do Pacífico). O peso relativo que têm problemas conceituais e problemas empíricos diz muito, a meu ver, a respeito do que distingue a pesquisa filosófica da pesquisa científica. Um naturalista defende, entretanto, que esta é uma distinção somente de grau, e que esses dois tipos de problemas constrangem-se mutuamente, mesmo em filosofia.

Em 2011, apresentei no Colóquio Principia uma palestra em que abordei pela primeira vez em público a questão de se o surgimento de grupos culturais coesos e igualitários na evolução humana pode ser visto como uma transição em individualidade. Esta palestra foi publicada em Abrantes (2011e), na forma de um capítulo com o título ‘Culture and transitions in individuality’. Eu o escrevi em inglês para discutí-lo com colegas de outros países. No resumo do artigo, coloco as questões que me inquietavam:

“Some ‘major’ evolutionary transitions have been described as transitions in individuality. In this depiction, natural selection might bring about new kinds of individuals, whose evolutionary dynamics takes place in a novel way. Using a categorization proposed by Godfrey-Smith (2009), this transition is fully accomplished when a new ‘paradigmatic’ Darwinian population emerges. In this paper I investigate whether at some point in the evolution in the hominin lineage a transition of this kind might have happened, by assuming some of the theses of dual inheritance theory, especially about the role played by a conformist bias. I argue that Godfrey-Smith misses in his book a scenario in which conformism is one of the preconditions for a transition towards a Darwinian population of cultural groups.”[27]

Entro agora em mais detalhes sobre como tratei essa questão.

Godfrey-Smith propôs, em seu livro, uma representação de diferentes tipos de ‘populações darwinianas’ usando várias dimensões (parâmetros)  em um hiperespaço que permitem não só distinguir populações ‘paradigmáticas’ de populações ‘marginais’, mas também trajetórias que levam de uma população a outra. Transições em individualidade podem então ser representadas por trajetórias ligando um tipo de população paradigmática a outro tipo de população paradigmática.[28]

Minha questão pode, portanto, ser colocada nos seguintes termos: haveria uma trajetória ligando uma população paradigmática de agentes culturais a uma (meta-)população paradigmática de grupos culturais? Essa questão vincula-se diretamente ao tópico que vinha pesquisando, sobre as condições nas quais evoluiu a colaboração em grandes grupos humanos, com seus pré-requisitos cognitivos.

A hipótese que passei a articular foi a seguinte: essa evolução poderia, em princípio, corresponder a uma trajetória na qual os membros dos grupos humanos tornam-se uma população darwiniana marginal (com valores baixos para parâmetros como o que quantifica a variação entre eles) e, simultaneamente, emerge uma (meta-)população darwiniana paradigmática de grupos culturais coesos e com grande variação fenotípica (cultural, no caso) entre eles. Como disse anteriormente, Godfrey-Smith não explora isso no capítulo 8 do seu livro embora os capítulos anteriores abrissem, a meu ver, essa possibilidade.

Não conseguiria expor melhor a minha hipótese de trabalho do que fiz no já referido artigo que publiquei na Revista Aurora. Permito-me citá-lo longamente:

“… quando o comportamento de um agente num grupo é marcado pelo conformismo, ele promove a cooperação e abstém-se de subvertê-la, abrindo mão de ganhos imediatos na sua aptidão para favorecer a aptidão do grupo como um todo. Essa análise é um forte indício, a meu ver, de que [uma população de grupos culturais] pode constituir uma população paradigmática, resultado de uma transição em individualidade. Não basta descrevê-la dessa forma, e situá-la no hiperespaço: é preciso investigar, também, os processos causais que poderiam ter sido responsáveis por essa transição, tópico a que estou me dedicando no momento. Vimos que teorias como a proposta por Richerson e Boyd destacam a evolução, nessa linhagem, de uma nova modalidade de herança e pressupõem que a seleção no nível dos grupos culturais humanos é suficientemente forte e fator irredutível na emergência da cooperação em larga escala.”

A questão da herança cultural e das condições para que a seleção ocorra no nível dos grupos culturais é, portanto, crucial para articular essa hipótese. Foram esses tópicos que viria a aprofundar no artigo que publiquei em 2013 no periódico espanhol Contrastes.

Desenvolvi um pouco mais essas idéias durante o meu estágio sênior no Institut d’Histoire et de Philosophie des Sciences et des Techniques (IHPST) em Paris, entre agosto de 2012 e fevereiro de 2013. Lá pude trabalhar as hipóteses lançadas no capítulo Abrantes (2011e), que adquiriram uma feição mais madura no artigo supracitado de Contrastes (Abrantes, 2013a). Escrevi este artigo em inglês para ser apresentado no congresso que fundou a Associação Ibero-Americana de Filosofia da Biologia (AIFBI) em Valencia, Espanha. Eu estava, no período, fazendo o estágio sênior no IHPST.

Nesse artigo, contextualizo, de forma mais clara, na literatura sobre transições em individualidade, o livro de Godfrey-Smith de 2009, e pressuponho a exposição que havia feito em Abrantes (2011e) da representação multi-dimensional que este filósofo propõe para tipos de populações darwinianas.

Godfrey-Smith argumenta que não há uma noção clara de reprodução que se aplique a grupos culturais e que, portanto, estes não podem ser considerados indivíduos em um sentido biológico-evolutivo do termo. Eu volto a explicitar, como fizera em 2011, que isso me envolve com uma temática propriamente metafísica:

“I should emphasize straight away that I am not here concerned with a methodological project, namely, that of appraising how fruitful might be the application of biological models to explain cultural dynamics. I am pursuing, rather, a program in the philosophy of nature: how do humans, and culture specifically, fit into our picture of other well-known [transitions in individuality]?”[29]

No artigo-síntese que escrevi para o número especial sobre filosofia da biologia da Revista Aurora (Abrantes, 2013b), ressalto também as implicações metafísicas desse trabalho: “Em que medida, [a noção de indivíduo] pode aplicar-se, de modo apropriado e fértil, a grupos culturais?”. Retomei isso mais recentemente em Abrantes (2018a).

Em Abrantes (2013a) faço menção a um artigo posterior de Godfrey-Smith, datado de 2012, onde ele mantém-se avesso a enveredar por essa via metafísica (a despeito de ser autorizada por seu livro, como já indiquei, e ser empreendido por autores que ele mesmo cita em seu artigo).[30]

Voltando ao argumento central do artigo em Contrastes, a teoria sobre a evolução humana proposta por Richerson e Boyd pressupõe que a seleção no nível do grupo teve um papel indispensável nesse processo. A emergência de um novo sistema de herança, a herança cultural, atuando em paralelo com a herança genética, permitiu que a seleção nesse nível tivesse intensidade suficiente para afetar o processo evolutivo (há consenso entre os biólogos que isso não se dá em outras espécies).

Nesse artigo, envolvi-me com o problema conceitual de distinguir diferentes tipos de seleção em múltiplos níveis, que vem sendo enfrentado por filósofos da biologia.[31] Essa discussão requer que se articule um conceito de reprodução que possa ser aplicado em cada um dos níveis de seleção. Godfrey-Smith impõe critérios mais rígidos que os adotados por Richerson e Boyd para que se possa afirmar que um determinado indivíduo se reproduz. A aplicação desses critérios torna insustentável afirmar que grupos culturais ‘reproduzem-se’, eliminando a possibilidade de que a seleção atue no nível desses grupos. Na minha interpretação, este foi o motivo pelo qual Godfrey-Smith não considerou, sequer, a possibilidade de que grupos culturais componham uma (meta-)população darwiniana paradigmática. Isso o impede, consequentemente, de vislumbrar uma (possível) transição em individualidade que pudesse ter ocorrido na linhagem hominínea. Para sustentar essa interpretação, cito no artigo de 2013 um trecho do livro de Godfrey-Smith que me parece significativo:

“In this book I treat Darwinian processes involving growth and persistence without reproduction as marginal cases (…) So ‘cultural group selection’ of a significant kind requires differential reproduction, not just differential persistence, even though the border between these is vague”.[32]

Ele não deixa dúvidas a respeito das condições que considera necessárias para que a seleção atue no nível de uma população darwiniana de grupos: “…estes têm que variar, reproduzir-se e herdar características de outros grupos” (2009, p. 118-9).

Por algum tempo, impus-me a tarefa de conceber modalidades de reprodução (e de aptidão biológica) que pudessem ser atribuídas a grupos culturais humanos, e especulei sobre o papel que a seleção de grupo (em suas diversas modalidades) pudesse ter desempenhado numa possível transição em individualidade e que teria redundado na emergência de grupos culturais coesos, com características (ontológicas) de indivíduos biológicos.

Apresentei minhas conjecturas a respeito em palestras (particularmente, na que dei no IHPST durante o meu estágio sênior, mencionado acima), e as discuto sistematicamente no artigo supra-citado de 2013. Esta é uma temática que está em aberto, e que requer um trabalho difícil, ao mesmo tempo de natureza conceitual e empírica. Com respeito à dimensão empírica, para se poder avançar nisso é preciso dispor de informações sobre a demografia e a migração de grupos humanos, bem como sobre sua interação (se conflituosa ou não, por exemplo) durante o Pleistoceno. Essas informações são, reconhecidamente, difíceis de obter e serão, talvez para sempre, objeto de controvérsia.