Paulo Abrantes - Filosofia

Uma cisão na Antropologia

O artigo ‘Natureza e Cultura’ instigou-me a tentar compreender como a área da antropologia, e não só, está cindida internamente, entre aqueles que trabalham na perspectiva de uma antropologia cultural (ou social) e aqueles que se dedicam a uma antropologia biológica (antigamente denominada ‘antropologia física’).

Ao ser convidado para participar do IV Congresso Iberoamericano de Arqueologia, Etnologia e Etno-história, que ocorreu em Dourados, Mato Grosso do Sul, em 2017, aproveitei a oportunidade para comunicar os primeiros resultados dessa investigação.

Eu sistematizei essas idéias em um artigo que está no prelo, que enfatiza as controvérsias que alimentam cisões como as que se manifestam em antropologia: Human evolution: a role for culture? In: Alwood, J.; Pombo, O.; Renna, C.; Scarafile, G. (eds.) Controversies and Interdisciplinarity. John Benjamins (Amsterdam).

Nesse artigo, indico que o programa em biologia conhecido como ‘evo-devo’- de aproximar os processos de desenvolvimento dos organismos (ontogenéticos) e de evolução das populações(filogenéticos)-, bem como a proposta, com um caráter nitidamente filosófico, de uma ‘teoria de sistemas de desenvolvimento’, levam a uma constestação radical da dicotomia natureza/cultura. Mostro ainda que antropólogos como Tim Ingold estão se apoiando nesses debates contemporâneos nos fundamentos da biologia para propor uma reaproximação das grandes áreas em que a antropologia é, tradicionalmente, dividida.

Não perdi as oportunidades que se ofereceram para buscar uma aproximação entre a filosofia e as ciências sociais, de um lado, e a psicologia e a biologia de outro. Isso é tanto mais relevante quando a compreensão de processos complexos, como a evolução humana, requerem a convergência de esforços e a complementariedade de enfoques e competências.

A título de exemplo, menciono brevemente algumas experiências recentes, além das já referidas ao longo da trajetória aqui narrada.

Aceitei um convite para fazer uma apresentação do livro do saudoso Prof. Paulo Saraiva, que foi um pesquisador em neurofisiologia do Instituto de Ciências Biológicas da UnB, com o título Cérebro, evolução e linguagem, publicado em 2014. Esse autor aborda no seu livro vários assuntos a que me apliquei, como o do papel da cultura na evolução humana e suas bases cognitivas, como a capacidade para leitura de mentes. Foi ao mesmo tempo um desafio e uma grande satisfação poder debruçar-me sobre o trabalho de grande fôlego realizado por Paulo Saraiva a respeito de tópicos de grande complexidade, como o da evolução da linguagem. Este é um assunto que sempre me intrigou, mas também me intimidou, e gostaria de ainda ter energia e tempo para poder encará-lo, além das referências muito pontuais que a ele fiz em alguns trabalhos, e também neste Memorial.[33]

Também gostaria de mencionar um trabalho em torno do tema da cooperação e do conflito na evolução humana que venho realizando com a bióloga colombiana Catherine Bernal, que conheci na UnB durante uma visita que nos fez quando ainda desenvolvia a sua pesquisa de doutoramento na Universidade do México. Já publicamos um artigo (2018b), e um outro, com um caráter mais historiográfico, está em elaboração, no qual investigamos como diferentes ‘imagens de homem’ permearam, e ainda permeiam, as controvérsias em torno do papel que a struggle for existence (luta pela existência) darwiniana teve na linhagem hominínea ao lado do lugar, inequívoco e distintivo, ao mesmo tempo que paradoxal no contexto de um processo evolutivo, que a cooperação em larga escala tem nos grupos humanos.

Quero concluir esse Memorial apontando para algumas tendências gerais, e temas unificadores, na pesquisa aqui descrita.